sexta-feira, 21 de setembro de 2012

EU X RELAÇÕES FAMILIARES # PAI



Meu pai sempre foi um homem duro e de difícil expressão de sentimentos. De silêncio desaprovador e sempre com palavras de cobrança ou xingamentos por conta de algo que deu errado ou não foi feito direito, os momentos de sorriso e zoação eram limitados aos domingos, que é quando o tínhamos mais presente na nossa vida, mais especificamente pela manhã enquanto minha mãe fazia o almoço, que é quando e de vez em quando ele embarcava numas brincadeiras paternas esquisitas, virando por exemplo um monstro estirado no chão da sala se fingindo de morto até que uma de nós criassemos coragem de ir cutucá-lo e viver aquele delicioso momento de horror pelo susto do seu despertar e fugir correndo por todo canto da sala enquanto ele rosnando, grunindo engatinhava zumbi atras da gente, muitas vezes até babando para dar maior realidade a sua condição de monstro e não dava sossego até nos acuar num cantinho fazendo a gente gritar chorando de susto pedindo a ajuda da mãe que, claro, lá mesmo da cozinha, fazia ele parar acabando com toda a brincadeira kkk.


Fora esses momentos e quando ia visitar minha avó onde literalmente se sentia em casa e continuava ajudando mesmo depois de casado, sempre com alguma traquina esquematizada para sacanear com seus irmãos e irmãs, no geral ele era aquele homem que não gostava e não conseguia conversar mais que duas palavras ou uma ordem, que não admitia e não concedia carinho e que quando não estava em casa totalmente isolado no seu canto trabalhando em algo, estava no bar, bebendo. Com a gente e particularmente comigo até o chegar da adolescência (que é quando comecei a sacar algumas coisas e também rolou um fato que acredito eu foi o que nos afastou) não tínhamos do que reclamar, afinal, bem ou mal, pouco ou muito pouco presente em carinho e atenção, estimulo e elogios, ele era nosso pai e éramos felizes com ele, e mesmo sabendo que nem de longe ele era por exemplo os pais que somos hoje para nosso filho, sendo amigo e procurando ouvir e respeitar numa condição de reconhecer que criança também é gente, o amávamos e venerávamos e isso pra gente já bastava.

Meu pai sempre teve verdadeira obsessão em ter um filho homem e talvez por não conseguir fez de mim, a mais velha das filhas, o filho homem que não teve. Me levava junto com ele pra tudo quanto é lado, mais crescida e capaz passei a ajudá-lo na oficina de máquinas de padaria que tinha na frente da casa e como eu e minha mãe nunca tivemos uma relação materna afetuosa, minha mãe vira e mexe me surrava e espancava por qualquer motivo e muitas vezes sem nenhum motivo aparente; isso acabava reforçando o meu laço de afeto com o meu pai. Meu pai por sua vez estava sempre com seu olhar de desaprovação para o que eu fazia, sempre nada satisfeito, me fazia sempre refazer tudo que fazia até considerar bom, mas passivel de melhorar. Ninguém aliás era melhor ou igual a ele em nada, por este motivo não conseguia manter um ajudante por uma semana sequer, tinha preconceito e mania com quase tudo, era racista e não escondia isso de ninguém e vira e mexe batíamos de frente, eu sempre indo contra a maré dele e isso o irritava ao ponto de querer fazer valer sua autoridade me colocando apelidos ofensivos quando não podia comigo, demonstrando sua insatisfação com meu corpo (sempre fui a gorda numa família de magros de ruim, então podem imaginar néh), ainda sim, eu preferia ficar alí sendo a eterna burra gorda do lado dele do que perto da minha mãe, minha presença diante dos olhos dela, já era uma ofensa e isso bastava pra ela começar.


Essa relação de amor e desaprovação durou até o período da separação dele e da minha mãe, que por conta de uma mentira, muito drama e muita chantagem emocional por parte dela num determinado dia de arranca rabo, acabou me fazendo sair em sua defesa até física, onde, para defendê-la de uma falsa tentativa contra sua vida fui contra meu pai, ficando do lado de quem sempre me surrou, enfrentando e ameaçando ele a um ponto que, se não fosse a covardia dele de enfrentar as coisas da vida, talvez o que eu teria hoje seria mais que arrependimento. Vocês devem estar se perguntando porque fui contra meu pai que sempre esteve do meu lado e apoiei minha mãe que só me surrava, é difícil explicar, ela era minha mãe, foi tudo de supetão, eu voltando do meu primeiro trampo numa tarde, peguei a rua cheia de vizinhos gritando pra eu fazer alguma coisa e me assustei, na epoca todos enganados por uma mentira contada por ela para conseguir nossa razão e defesa, apesar do meu pai não ser aquele pai presente,ser severo e duro, nós éramos tudo que ele mais amava e talvez isso causasse ciumes na minha mãe, pena foi ter de crescer, entender algumas coisas, descobrir outras para sacar que naquele dia estava sendo enganada como todos aqueles vizinhos, tudo para que ela visse todas nós se afastar do nosso pai. Não tiro a culpa dele, minha mãe sofreu muito com meu pai, mas não vou falar deles enquanto casal agora, esse é o post da minha relação com ele. Bem, Creio que, foi aí, apartir desse dia que eu e meu pai nunca mais conseguimos voltar a ser os mesmos um com o outro. Talvez por isso e por outras mil coisas que vivi no decorrer da vida é que odeio com todas as forças mentira, nunca mais consegui ter confiança em alguém e não consiga passar do ato de amar apenas como um ser humano necessitado de ajuda minha própria mãe (a qual não tenho esse tipo de sentimento somente por isso e pelas surras, mas por outros motivos também, que reservo ao direito de falar no post sobre minha relação com ela).


Depois disso, muito tempo se passou. Hoje meu pai já refeito em alguns comportamentos se ainda é preconceituoso se mantém calado sobre isso, continua não aprovando meu peso mas não dispara mais suas piadinhas ou apelidos porque percebe que levo na boa, faço piada de mim mesma e isso quebra a graça dele.Continua odiando igreja, mas já aceita deus, do contrário não teria aceitado se envolver por um tempo com o kardecismo, coisa que entrando a beatisse da minha mãe numa das mil vezes que reataram e separaram, perdeu a vontade de prosseguir em alguma crença, voltando para a ignorância do ser e como sempre foi, para a bebida. A idade e o passar do tempo foi me fazendo descobrir coisas, como a da maioria dos filhos de que o pai não é nenhum herói, sofre e tem defeitos e isso não me afasta dele; e coisas que só nós (eu, minhas irmãs e minha mãe) sabem do meu pai, coisas que claro, ele não mostra e não se mostra para ninguém, nenhum dos familiares ou amigos de rua (e por este motivo seremos eternas incompreendidas e mal vistas por essas pessoas) e até pouco tempo atrás não sabia que sabíamos, mas que não alterou em nada o comportamento dele após isso, não demonstrou arrependimento, culpa, desprezou tudo que nos causou e causa, dando continuidade a sua vida como se nada tivesse acontecido, transferindo a culpa de tudo sempre para outras pessoas, menos para ele mesmo.

Isso me barrou no tempo, me fez ter apenas lembranças de infância, da época em que eu não conhecia meu pai verdadeiramente. Conversamos, não somos brigados, ele frequenta minha casa, consegue ser mais aderente com meu filho, seu neto, consegue até responder “eu também” quando meu filho diz que ama ele, mas talvez por eu ser a contra maré dele ou ser de repente todo conjunto visceral de atitudes e palavras que ele não teve coragem de ser na vida, teremos nessa vida e enquanto vivermos esse bloqueio. Não me perguntem, eu sinto muito tudo isso, tenho saudade da ignorância em que eu vivia e saudades do pai que descobri que não tenho...muitas vezes me pergunto porque não consigo ser como minhas irmãs que o conhecem como eu e conseguem ser mais próximas. O ressentimento entre a gente apesar de não declarado é claro, lúcido, sóbrio e gritante. Só consigo algum diálogo com ele mais duradouro quando finjo ter 14 anos de volta e peço ajuda em alguma coisa, tirar alguma dúvida sobre algo, precisão, daí ele me ajuda e me responde como o pai dos 14 anos, ensinando mas sempre com aquele olhar de reprovação de que ensina para alguém que nunca vai aprender direito.

Eu sei que ele em seu pensamento mais fundo que submerge a cada olhada pra mim revela o desejo de querer de repente que eu tivesse e fosse completamente diferente, que me calasse mesmo quando estou em silêncio, que fosse mais conivente com seus erros e ignorâncias, que mentisse, porque não, todas as outras mentem para defendê-lo ou apoiá-lo quando ele manda ou pede ...quem eu penso que sou, porque só eu não minto, não aceito, não apoio...eu, não consigo...perdão pai, não aprendi com você, não sei ser quem eu não sou, mas ainda sim, mesmo com esse vidro espelhado e grosso entre a gente, eu amo você.




Um comentário:

  1. que lindo! e triste também.
    tô vivendo uma fase muito dificil com o meu pai, atrelada à fase difícil que vivo comigo mesma...

    queria também poder voltar aquela época da santa ignorância, às vezes a luz nos cega demais os olhos e isso doi.

    menina bonita.

    beijosss

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